Escrito por: Antônio Augusto de Queiroz
Os trabalhadores com filho menor que ganham o Piso nacional, em
lugar de melhoria remuneratória, podem ter tido perda salarial com o aumento
real do salário mínimo. É que as faixas de enquadramento da tabela do
salário-família não foram atualizadas com o mesmo índice do mínimo, levando ao
enquadramento do trabalhador de salário mínimo na faixa de menor valor do
salário-família, o que, na prática, anula o aumento real do mínimo.
Dizendo de outro modo. Pelas regras atuais, as duas faixas da
tabela do salário-família são corrigidas com base no mesmo índice que atualiza
os benefícios previdenciários, o INPC, e o salário mínimo, além da inflação,
teve aumento real de 7,5% este ano.
Assim, a tabela do salário-família, com a correção apenas com base
na inflação, ficou assim: 1ª faixa, no valor de R$ 31,80, é devida a quem ganha
até R$ 608,80; a segunda, com valor de R$ 22, será devida ao trabalhador com
renda entre R$ 608,80 e R$ 918,05. Com isto, todos os trabalhadores que recebem
salário mínimo estarão na segunda faixa do benefício, perdendo R$ 8,20 por cada
filho.
Exemplo: um trabalhador de salário mínimo com cinco filhos
menores, além de ter o ganho real do mínimo (de R$ 40) anulado, ainda teve
perda de R$ 1, já que em lugar de receber o valor da primeira faixa do
salário-família (R$ 31,80 por filho), cairá na segunda, (R$ 22), perdendo R$ 41
no total.
Se o governo não baixar uma medida provisória estendendo às faixas
do salário-família o mesmo índice de correção do salário mínimo, estará dando
com uma mão, no caso o aumento do salário mínimo, e retirando com a outra, no
caso o rebaixamento do valor do salário-família.
A resistência no governo, segundo apurou o Diap, está no
Ministério da Fazenda, que considera desnecessário mudar a política de correção
do salário-família. Como o eventual aumento do salário-família beneficia os
mais pobres, aqueles que vivem do salário mínimo, e não os grandes empresários
ou banqueiros, talvez isso explique a indiferença do ministro da Fazenda e de
seus conselheiros diretos.
A presidente Dilma já está avisada da resistência da Fazenda. Se
não fizer nada para corrigir essa injustiça, seu discurso de defesa dos mais
pobres poderá perder consistência. O custo disso, perto das concessões do
governo - via renúncia, crédito subsidiado e incentivos fiscais - é
absolutamente insignificante. Que a presidente determine a imediata correção
dessa perversidade.
